terça-feira, 2 de julho de 2013

Como anda a sua autoestima?




Outro dia me perguntaram o que era exatamente autoestima. Parei, pensei... Sabe aquela pergunta que você sabe o significado, mas meio que tem dificuldade para explicar o que é? Então, me peguei neste momento. Daí comecei a organizar este conhecimento para que eu pudesse explicar o que é.

É comum escutarmos no senso comum e também na área Psi "fulano tem a autoestima baixa". Mas o que vem a ser isso exatamente? Quando falamos isso, buscamos dizer que a consciência que a pessoa tem de si mesma está de alguma forma abaixo do que realmente é, ou seja, quem chegou a ver uma propaganda que rodou nas redes sociais da marca de sabonete Dove, compreende o que estou falando - se não viu, recomendo que assista, o vídeo se encontra no final do post.

Como eu disse, a autoestima está ligada a consciência que a pessoa tem de si mesma que está associada as suas características pessoais que foram construídas durante sua infância, gerando assim um autovalor.  Tal "bagagem" é construída a partir das experiências obtidas durante a infância, que são levadas durante toda a vida. Vale ressaltar que não é algo determinante. A pessoa pode crescer em um ambiente repleto de críticas e rejeições e mesmo assim ter uma consciência de si positiva. Isso acontece por conta das percepções positivas ou negativas que a pessoa constrói de si a partir das crenças e pensamentos disfuncionais que foram criados.
Quando a percepção é negativa, faz com que a pessoa busque estratégias para fugir emocionalmente, aliviando assim o sentimento negativo gerado. Essa fuga ocorre através de comportamentos variados, seja através da comida, drogas, compras e desorganização excessiva ou até mesmo na maneira de se comportar no mundo, que podem ser de forma passiva, no qual a pessoa aceita tudo o que é dado pelo meio, se mostrando sempre como "boazinha", colocando o desejo do outro à frente dos seus próprios desejos; podem ser agressivas, colocando-se no mundo de forma dura, afrontando e sempre batendo de frente com todos, como se o mundo estivesse contra elas.
Muitas pessoas ainda dizem "eu sou assim mesmo", costumo dizer que elas não "são" assim, mas "estão" assim, e que através do trabalho psicoterapêutico é possível mudar esse olhar. As situações que produziram tais percepções não podem ser mudadas, mas a interpretação que fazemos dela, sim. É necessário que possamos aprender a enxergar nossas marcas de maneira suave e ver o que podemos tirar de cada experiência. Uma coisa eu sei e posso compartilhar com vocês, tudo muda! Que tal mudar a lente que usamos para enxergar o mundo?

E como a autoestima é essencial para a saúde emocional do ser humano, é importante prestarmos atenção ao que fazemos ou deixamos de fazer por nós mesmos.

Diante do que foi colocado, afirmo da importância em buscar um processo psicoterapêutico visando trabalhar o autoconhecimento e assim, experimentar novas experiências, que visem o auto cuidado.
Concluo com uma frase do Oscar Wilde, "Amar a si mesmo é o começo do único romance que vai durar a vida inteira". Espero que tenha gostado e até o próximo post. ;)



                                                - Vídeo do sabonete Dove -

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Reestruturação cognitiva e comportamental


Se você tem acompanhado as postagens anteriores, esse é o último referente a Terapia Cognitivo-Comportamental. Espero que gostem!
A partir do que foi levantado até o momento, ficará mais fácil compreender como a TCC pode contribuir para a manutenção e para o processo de emagrecimento do indivíduo. Relembrando que o comportamento é influenciado pela cognição, cognição esta que pode ser modificada gerando assim o comportamento desejado.
Na maioria das vezes, quando algumas pessoas têm dificuldades para emagrecer ou ficam numa oscilação do peso, ocorre o que chamamos de pensamentos disfuncionais ou sabotadores. Tais pensamentos dificultam na iniciação de algum programa de emagrecimento ou até mesmo em manter os comportamentos adequados para a manutenção do peso.
Um dos erros adotados pela maioria das pessoas é buscar formas de emagrecer rígidas demais, visando um resultado imediato e/ou muito diferentes do que já estão habituados a fazer em seu dia-a-dia, e o pior, não estando preparados para isso. Na maioria das vezes acabam fracassando e os pensamentos que estão associados ao fracasso são do tipo: “sou muito preguiçosa (o)”, “não tem jeito, sempre serei assim!”, “minha família é toda obesa, por isso sou gorda (o)”, “mudar é muito difícil”, “é a genética”, etc. Estes pensamentos acabam gerando sentimentos de impotência, desesperança e outros igualmente desagradáveis.
Dessa forma, Beck (2009) orienta que antes de buscar uma dieta, seria importante que a pessoa aprendesse a pensar funcionalmente de forma a manter um comportamento adaptativo em relação a sua meta. Tal aprendizado visa ampliar o repertório de habilidades para que a reeducação alimentar seja satisfatória. A partir do momento em que as técnicas são ensinadas, a pessoa pode começar a emagrecer antes mesmo de iniciar uma reeducação alimentar, pois é a partir desse aprendizado que a pessoa aprende a lidar com as dificuldades que ocorrem durante o processo.
Mas saber apenas as técnicas não é o suficiente.  É preciso também saber como colocar em ação, saber como o emocional interfere no processo e principalmente, ter consciência que cada um tem um processo de emagrecimento singular. De acordo com Ferreira (2009, p.25)

“Aceitar seu estado de obesidade é o primeiro passo. Saiba que aceitar não significa gostar de estar com sobrepeso, e sim reconhecer e respeitar o fato. Sem aceitação não há mudança, porque não há reconhecimento do que necessita ser mudado”.

De acordo com Beck (2009), um estudo feito na Suécia, demonstrou a eficácia da TCC em indivíduos que tinham como foco o emagrecimento. A conclusão do estudo foi que 92% das pessoas que passaram pelo programa conseguiram manter o peso e também reduziram ainda mais o peso após um ano e meio de tratamento. Já outros estudos revelaram que a maioria das pessoas que não passaram por um acompanhamento baseado na TCC voltou a recuperar a maior parte do peso eliminado.
Vale salientar que o pensamento pode influenciar na mudança de hábitos voltados para o emagrecimento de variadas formas. Quando uma pessoa inicia um processo de emagrecimento, ela não percebe, mas diversos pensamentos invadem sua mente. E como assinala Ferreira (2009, p.41) “quem deseja manter-se magro precisa emagrecer seu pensamento e sua alimentação de forma permanente.” Sendo assim, veja no quadro abaixo alguns dos pensamentos disfuncionais que dificultam no processo de emagrecimento.



Tipos de pensamentos
Características
Exemplos
Permissivo
Acompanhado de justificativas “mas...”.
  “Sei que para eu emagrecer preciso praticar atividade física, mas hoje estou tão cansada...”.
  “Sei que não deveria optar por um rodízio, mas se trata de uma comemoração...”.
Negativo
Acompanhado do erro cognitivo - catastrofização
 “Acabei comendo mais do que eu deveria... Sou um fracasso mesmo! Não adianta... Não vou conseguir...”.
Autorização
Desconsidera alguma ou todas as propostas do programa
 “Não tenho que ler os cartões de enfrentamento, sei exatamente do que preciso para mudar.”
Estressores
Estão associados à busca pela perfeição e com isso, criam metas irreais.
 “Não posso errar!”, “Tenho que fazer tudo perfeito”.
Quadro 1 – Tipos de pensamentos

O trabalho com esses tipos de pensamentos ocorrem através da reestruturação do pensamento. Dessa forma, o indivíduo aprenderá a pensar de maneira funcional e a lidar com as emoções conflituosas, ficando cada vez mais habilitado a resolver problemas e focando no que é mais saudável no momento. Essa mudança também acaba influenciando em seus comportamentos, pois tal aprendizagem torna o processo de emagrecimento bem mais fácil.
De acordo com Beck (2009), pessoas magras pensam de forma diferente de pessoas que tem dificuldade em manter ou que tem excesso de peso, com isso, fica nítido a necessidade de modificar o pensamento visando uma mudança no comportamento alimentar.
Outro fator importante a ser considerado é que o ato de comer vem sempre acompanhado de um estímulo. A partir do momento em que se percebem os estímulos, é possível aprender a reconhecê-los e a lidar positivamente com eles. Estimulo esse que pode ser:


  •   Estímulos ambientais: visão e o cheiro do alimento;
  •   Estímulos biológicos: fome e sede;
  •   Estímulos emocionais: a partir de sentimentos considerados desagradáveis o indivíduo busca o alimento como forma de alivio.
  •   Estímulos mentais: as imagens mentais sobre o ato de comer, ou focar a atenção em receitas, imagens de comida, etc.
  •   Estímulos sociais: pessoas que incentivam a comer ou o fato de querer comer como a maioria.

Segundo Beck (2009, p.37) a cadeia de eventos que leva ao ato de comer, ocorre da seguinte forma:
A pessoa encontra um estímulo, tem um pensamento, toma uma decisão  e logo age.


Muitas vezes o professor interno pode aparecer entre o pensamento e o comportamento, e esse debate entre o pensamento disfuncional e o pensamento funcional gera um gasto de energia que pode ser aliviado com a decisão de comer. Mas como Beck (2009, p. 38) aponta, "Da mesma forma que a decisão de comer pode reduzir a tensão, a decisão de não comer também pode". Afinal o alivio ocorre antes de o alimento ser ingerido, pelo menos é assim que nosso cérebro funciona, ele registra o pensamento.
Um dos pontos trabalhados no programa de emagrecimento é a psicoeducacao, mostrando a importância de planejar a alimentação, aprender a resistir aos desejos por comida, melhorar ou modificar os hábitos alimentares, perceber a importância de atividade física. Ter um diário de bordo também é importante para que seus pensamentos e sentimentos sejam registrados. Além disso, pode ser um espaço para anotar e responder os pensamentos disfuncionais.
      Dessa forma, percebe-se a importância em incorporar algumas mudanças para que o programa tenha o sucesso esperado. Entre essas mudanças, podemos citar a forma de alimentar-se. É importante sentar-se para realizar as refeições. Além disso, é importante comer calmamente, saboreando o alimento, sem prestar atenção a outros estímulos, como comer falando ao telefone, ou na frente do computador, na frente da tv, etc.
Além de trabalhar a reestruturação do pensamento, outras habilidades também são necessárias para que o processo de emagrecimento seja eficaz. São elas:

  •   Saber diferenciar a fome da vontade de comer;
  •   Saber o quanto é necessário para saciar a fome;
  •   Não buscar na comida uma forma de conforto, que acaba gerando autocrítica e abala a autoconfiança.
  •   Perceber como terrível o fato de engordar.
  •   Ter atitude proativa, afinal uma pessoa magra não come bombas calóricas ou vivem para comer. Já uma em processo de emagrecimento pode ter uma atitude reativa, focando na injustiça e se colocando como vítima.
  •   Ter consciência que uma reeducação alimentar é para sempre. Apesar de o processo ser lento, as chances de manter são muito maiores.

Algumas técnicas auxiliarão no processo de emagrecimento. A primeira delas são os cartões de enfrentamento, que são cartões em brancos comprados em papelaria, no qual, recomenda-se escrever neles frases motivadoras mostrando as vantagens de emagrecer. Sempre colocando em ordem de importância. Para que o cérebro possa registrar estas frases, é necessário que sejam lidos duas vezes por dia. Não apenas fazer uma leitura, mas uma reflexão de todas as vantagens. E durante o programa é importante que outros cartões sejam criados para que haja cada vez mais uma maior implicação ao processo de emagrecimento (BECK, 2009).
E para colaborar na mudança por hábitos saudáveis, além da reestruturação dos pensamentos, é essencial que o ambiente também seja propicio para o processo de emagrecimento. Tirar os alimentos calóricos da frente é fundamental, cuidar dos estímulos ambientais ajuda muito. Trocar pratos e talheres grandes por pratos menores e optar por alimentos mais saudáveis.
Durante o processo, a pessoa aprende a reconhecer suas próprias qualidades. Que é fundamental para combater o lado critico, pois em vez de focar no que fez de errado, aprender a ver o que fez de certo faz toda a diferença. Isso facilita a lidar positivamente com possíveis deslizes.
Parece que quando o desejo é emagrecer varias situações ocorrem e desistir do emagrecimento é o mais fácil. Para solucionar essa questão, além de trabalhar os pensamentos disfuncionais, é importante eleger um "técnico". Esse técnico terá a função de ajudar nós momentos de crise e também nós momentos de realizações. Esse técnico pode ser um amigo, um parente ou mesmo um profissional (BECK, 2009).
Além de trabalhar o olhar sobre a comida e o ato de comer, é preciso ter consciência que a atividade física é essencial para alcançar a meta e como consequência tem inúmeros benefícios:

  •   Melhor aderência à dieta;
  •   Controla melhor o apetite;
  •   Alivia o estresse e melhora a disposição;
  •   Queima calorias;
  •   Preserva o tecido muscular;
  •   Promove a autoconfiança;
  •   Promove um bem estar físico e mental;
  •   Melhora a saúde e evita doenças.

Cada vez fica mais claro que o processo de emagrecimento não se trata apenas de fechar a boca e fazer alguma atividade física. O emagrecimento é um processo lento, não acontece do dia para a noite, mas a partir do momento em que se inicia, traz grandes benefícios em várias áreas da vida.

Espero que tenham gostado! Até a próxima... ;)

domingo, 30 de junho de 2013

Além das técnicas da terapia cognitivo-comportamental

No texto anterior falei sobre a terapia cognitivo-comportamental. Mas a abordagem não para por aí, existem muito mais informações a respeito dela. É uma abordagem rica e  que apresenta um resultado muito positivo no trabalho clínico. Diante disso, resolvi me estender um pouco mais e compartilhar com vocês esse texto que faz parte da minha monografia de conclusão de curso na especialização clínica em Terapia Cognitivo-Comportamental com ênfase em neurociência realizada no CPAF/UCAM RJ.
Muitos pensam que a TCC - terapia cognitivo-comportamental - é um amontoado de técnicas, de certa forma estão até certos, pois existem uma variedade de recursos disponíveis, mas não para por aí, não basta conhecer as técnicas e saber aplicá-las, é preciso estudo e aprimoramento constante por parte do profissional. Dessa forma, iniciando qualquer técnica na abordagem cognitivo-comportamental, é necessário que antes, o cliente perceba que ele, através de seus pensamentos disfuncionais é o responsável pelos problemas apresentados e não os outros como acontece na maioria das vezes. É muito comum jogarmos a responsabilidade para fatores externos (MCMULLIN, 2005).
            No primeiro encontro com o cliente é possível trabalhar essa questão através da técnica do A-B-C criada por Albert Elis. No qual, o “A” representa a situação e o “C” representa a consequência, ou seja, as emoções e os comportamentos. Essa é uma maneira universal de pensamento, mas é uma forma equivocada de pensar, pois o mundo externo não tem poder sobre nós. O responsável por nossos sentimentos está relacionado à nossa forma de pensar. Por isso, entre o “A” e o “C”, existe o “B” que representa nossas crenças que estão associadas à maneira de pensar, que podem ocorrer através de imagens, percepções, interpretações e fantasias (MCMULLIN, 2005).
            Parece fácil, mas nossos pensamentos são influenciados por um número extenso de processos internos, que muitas vezes já existem antes mesmo da situação “A” acontecer. Nossa maneira de perceber o mundo é um deles. Como falamos anteriormente, desde a infância vamos adquirindo uma série de aprendizagens que vão virando regras pessoais. Tais regras orientam nossas expectativas em relação a nós mesmos, ao outro e ao mundo. Quando estas expectativas estão fora da realidade, ocasiona um adoecimento, pois muitas vezes ou são inatingíveis ou viram obrigações na vida do individuo.
Outro ponto a levantar está no que o individuo acredita ser capaz de realizar, ou seja, sua autoeficácia.  Eficácia essa que precisa estar em equilíbrio, nem baixa e nem alta demais, se não sua realização fica comprometida. Tanto expectativas quanto autoeficácia formam o que chamamos de autoconceito. É ele que determina como o indivíduo atua na vida e também o que ele sente (MCMULLIN, 2005).
No caso da atenção, essa ocorre junto com a situação, ou seja, é ela que nos leva a perceber ou não o que ocorre. É como assistirmos uma cena de um filme, cada pessoa focará sua atenção em um determinado ponto. De acordo com McMullin (2005, p. 48) “O que nos afeta, no ambiente, é aquilo que nosso cérebro nos diz para prestar atenção”. Já a memória seletiva atua buscando experiências semelhantes já ocorridas na vida do individuo para assim, saber como agir diante do evento. Vale ressaltar que a memória não é exata, pois quando nos lembramos do passado, o recriamos de acordo com nossa percepção baseada no presente. Uma frase do escritor Gabriel García Márquez que retrata bem essa parte, diz o seguinte: “a vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para conta-la”.
            Outra influência é a necessidade que o ser humano tem de atribuir uma causa ao que acontece a ele. Se esta causa não é encontrada, ele a cria, mas nem sempre condiz com o que realmente é, dificultando assim, resolver o problema.
Não nos damos conta, mas entre uma emoção e um comportamento, sempre avaliamos a emoção antes de agirmos. E quanto mais negativa a avaliação em relação à emoção sentida, mais baixa será a capacidade de tolerância do individuo. O que determina a motivação do individuo em relação à situação ocorrida é o tipo de avaliação que fazem da emoção, caso essa avaliação seja negativa, o individuo terá dificuldades em lidar positivamente com o comportamento. Além da avaliação, temos também o que é chamado autoinstrução, que atua da mesma forma que a anterior, mas funciona como um professor interno. A autoinstrução é a forma encontrada pelo individuo, ainda enquanto criança, de lidar com determinadas situações da forma que ele acredita ser a mais adequada. O importante é perceber que tipo de conteúdo essa voz passa e qual o contexto em que ele é aplicado. Por exemplo, se uma pessoa que visa mudar os hábitos alimentares, tiver um professor interno crítico que diz: “Não está adiantando nada a reeducação alimentar”, a pessoa pode acabar desistindo do objetivo de emagrecer; já uma pessoa com o professor interno muito permissivo, pode pensar: “não tem problema abusar dos doces no final de semana, afinal é só dessa vez”.
Outra que também costuma atuar junto é a cognição oculta, que o individuo dificilmente reconhece, pois atua extremamente rápido e como consequência acaba agindo como se não tivesse escolhas. O individuo acaba relatando o seguinte: “Estava tão ansiosa que acabei me entupindo de sorvete” (MCMULLIN, 2005).
            Além de todas as influências anteriores que o pensamento sofre, ainda tem o estilo explicativo que está relacionado com a percepção geral que o individuo tem acerca da situação. É a forma que o individuo encontra para explicar o ocorrido e que também serve para compreendermos como o individuo atuará em situações futuras. Segundo Seligman (1975,1994, 1996, apud MCMULLIN, 2005) existem três categorias de estilo explicativo pessimista:
ü  Interno x Externo
ü  Estável x Instável
ü  Global x Específico
Os três tipos considerados desfavoráveis são: o interno, que está relacionado com o próprio indivíduo, ou seja, responsabiliza a genética ou sua personalidade com o problema. O estável está relacionado ao tempo de permanência do problema, que é percebido como duradouro e o global que acaba percebendo a situação de forma generalista, não vendo a situação como algo específico.
Diante do que foi visto até o momento, fica claro que as técnicas não são receitas de bolo como muitos ainda acreditam. E que outros fatores devem ser levados em consideração na hora da aplicação de uma técnica, para que a mesma tenha o resultado esperado.


sexta-feira, 28 de junho de 2013

Terapia Cognitivo-comportamental - TCC

No texto anterior, abordei o olhar sobre o corpo e sobre a alimentação. Neste texto, o objetivo é informar como surgiu a terapia cognitivo-comportamental e como esta pode auxiliar não só no que se refere ao emagrecimento, como também em variadas questões.
O olhar sobre a cognição nasceu a partir do questionamento existente a respeito de como a psicanálise e a abordagem comportamental lidavam com o problema da depressão. Na década de 60, tais questionamentos fizeram que alguns profissionais dessas abordagens buscassem nos processos cognitivos a explicação para os transtornos psicológicos. Nessa mesma década, Aaron Beck, ainda psicanalista, conduziu experimentos e observações clínicas, na qual se pensava na depressão como sendo uma raiva voltada para dentro. De acordo com Beck, os sonhos estavam associados à depressão, porém percebeu que os mesmos conteúdos presentes nos sonhos, estavam também presentes nos pensamentos dos pacientes. Tal conteúdo era sempre ligado à autocrítica, pessimismo e negatividade. Esta descoberta foi de grande importância para o surgimento da Terapia Cognitiva (PADESKY, 2010).
A partir daí, Beck passou a associar a depressão a padrões negativos de pensamento, levando ele a criar o Beck Depression Inventory (Inventário de Depressão de Beck – BDI), sendo este aperfeiçoado ao longo do tempo, passando a apontar também mudanças na motivação e no funcionamento físico. Além disso, é considerada a escala mais usada para mensurar a depressão (PADESKY, 2010).
Com isso, a Terapia Cognitiva (TC) foi cada vez mais se desenvolvendo e conquistando espaço no meio acadêmico. Segundo Knapp (2004), a Terapia Cognitivo Comportamental envolve mais de vinte abordagens terapêuticas, mas independente das diferenças que possam ocorrer, existem características comuns entre elas:
-  Estão ligadas ao fato de considerar o comportamento como sendo influenciado pela cognição;
-  Que a cognição pode ser monitorada e modificada;
-  Que o comportamento desejado pode ser conseguido a partir da mudança de pensamento.
A TCC de Beck, inicialmente foi desenvolvida para o tratamento da depressão e atualmente pode ser aplicada em uma série de outros transtornos e/ou áreas. O foco do trabalho terapêutico está em identificar e reparar padrões de pensamentos disfuncionais por meio do levantamento de hipóteses que serão confirmadas ou não ao longo do processo. Segundo TEIXEIRA (2004, p.302) “As origens dessas distorções vêm de erros decorrentes da organização cognitiva individual que as pessoas desenvolvem ao longo do curso da vida.” Dessa forma, a terapia cognitiva está pautada na relação entre pensamento, emoção e comportamento, levando em consideração que não é a situação ocorrida que ativa os sentimentos, mas sim o que pensamos acerca da situação. Quando tais pensamentos são disfuncionais, suscitam sentimentos considerados negativos, podendo ocorrer dificuldade na adaptação do individuo em seu meio. 
Burns (1989 apud Knapp, 2004, p.20) “Nós sentimos o que pensamos” e por mais simples que pareça, não é bem assim. Freeman et al (1990 apud Knapp (2004, p.20) ressalta o seguinte:
“Mas a TC não é um modelo linear em que “as situações ativam pensamentos, que geram uma consequência com resposta emocional, comportamental e física”. Há uma interação recíproca de pensamentos, sentimentos, comportamentos, fisiologia e ambiente. É reconhecido que as emoções podem influenciar os processos cognitivos e que os comportamentos também podem influenciar a avaliação de uma situação pela modificação da própria situação ou por evocar respostas de outras pessoas”.

Na terapia cognitiva, quando se fala em cognição, é necessário apontar que identificamos e trabalhamos com três níveis de cognição. São eles:
-  Pensamentos automáticos;
-  Pressupostos subjacentes ou crenças intermediárias;
-  Crenças nucleares ou centrais.
De acordo com a figura abaixo proposta por Knapp (2004), é possível perceber como são organizados os níveis de cognição. Os pensamentos automáticos estão ligados às crenças intermediárias que por sua vez estão ligadas as crenças nucleares ou centrais.



Os pensamentos automáticos como o próprio nome já diz, são os pensamentos que vem automaticamente à mente, de maneira rápida e que muitas vezes não são percebidos por quem os tem. Quando tais pensamentos são disfuncionais, eles atuam em cima das emoções e do comportamento do indivíduo, podendo vir em forma de pensamentos ou também em forma de imagens. Os pensamentos automáticos podem ocorrer através de situações internas, como por exemplo, um enjoo, ou externas, como por exemplo, alguém não retribuir uma saudação. Segundo Beck, “você pode aprender, no entanto, a identificar seus pensamentos automáticos prestando atenção às suas mudanças de afeto” (1997, p.30).
Os pensamentos automáticos podem ser de três tipos: Beck (1995 apud Knapp (2004, p.25) 
1.      Distorcidos, ocorrendo apesar das evidencias em contrário. 
Ex.: “Se me separar, nunca mais serei feliz”. 
2.      Acurados, mas com a conclusão distorcida. 
Ex.: “Meu filho não me telefonou até agora, deve estar incomodado comigo”. 
3.      Acurados, mas totalmente disfuncionais. 
Ex.: “Com essa lesão articular, a vida perdeu a graça, pois nunca mais poderei jogar tênis”.

Os pressupostos subjacentes ou crenças intermediárias como também são conhecidos influenciam os pensamentos automáticos e são influenciados pelas crenças centrais. Referem-se a padrões, atitudes, normas e regras impostas pelo individuo em situações vividas no dia a dia e estão sempre associadas a uma condição, que sendo seguida á risca, transcorre tudo maravilhosamente bem. O não cumprimento dessas crenças intermediárias pode ocasionar na ativação das crenças centrais negativas (KNAPP, 2004).
Segundo Beck (1997, p.32), “Em uma situação específica, as crenças subjacentes da pessoa influenciam sua percepção, que é expressa por pensamentos automáticos específicos à situação. Esses pensamentos, por sua vez, influenciam as emoções da pessoa”.
Exemplificando, vamos supor que uma pessoa tenha uma crença central de fracasso (falaremos sobre crenças centrais mais a frente) e tenha uma crença intermediária do tipo “tenho que ser o melhor em tudo que faço”. Percebem que existe uma condição? Caso ele não seja o melhor, sua crença central poderá ser ativada, ou seja, ele se achará um fracassado.
As crenças nucleares ou crenças centrais são formas de cognição mais internalizadas, consideradas verdades absolutas, percebidas de maneira rígida e generalizada pelo individuo, pois estão relacionadas às construções adquiridas na infância sobre a própria pessoa, o outro e sobre o mundo. Tais construções são fortalecidas ao longo dos anos, no qual servem de modelo para a interpretação de eventos ocorridos, formando o jeito psicológico de ser de cada um.
Beck (1995 apud Knapp, 2004, p.23) apresenta três agrupamentos de crenças disfuncionais:
1.      Crenças nucleares de desamparo (crenças sobre ser impotente, frágil, vulnerável, carente, desamparado, necessitado).
2.      Crenças nucleares de desamor (crenças sobre ser indesejável, incapaz de ser gostado, incapaz de ser amado, sem atrativos, imperfeito, rejeitado, abandonado, sozinho).
3.      Crenças nucleares de desvalor (Crenças sobre ser incapaz, incompetente, inadequado, ineficiente, falho, defeituoso, enganador, fracassado, sem valor). 

Associado as crenças centrais estão os esquemas. A diferença entre eles é 
que as crenças centrais são o conteúdo e os esquemas são as estruturas. Segundo Beck (1964,1967 apud Knapp, 2004, p.23)
“Esquemas são estruturas internas de relativa durabilidade que armazenam aspectos genéricos ou prototípicos de estímulos, idéias ou experiências, e também organizam informações novas para que tenham significado, determinando como os fenômenos são percebidos e conceitualizados.”

                Os esquemas primitivos mal adaptativos também são construídos a partir de interações disfuncionais com pessoas importantes na vida inicial do indivíduo. Os esquemas são compostos de cognições, memórias e sensações corporais vivenciadas pelo individuo e por sua interação com o outro, que servem como molde para o processamento de experiências.
Tais esquemas são considerados verdades absolutas, difíceis de modificar sem o trabalho terapêutico, estando também associados a um grande nível de afeto quando ativados (raiva, ansiedade, culpa ou tristeza), o que facilita a visualização do esquema, possibilitando o confronto e a modificação do mesmo (YOUNG, 2003)
Estes esquemas são desencadeados quando existe alguma mudança negativa na vida do indivíduo. Além disso, são autoperpetuáveis, ou seja, para que se mantenham, já que são resistentes à mudança, recorrem a três formas de atuação visando o reforçamento do esquema. Segundo Young (2003) e Knapp (2004) os processos de um esquema são:
-  Manutenção do esquema: são utilizados o pensamento e o comportamento de forma a reforçarem o esquema. Age de acordo com uma profecia auto realizadora, pois o indivíduo atua de maneira a fazer que o esquema se mantenha. Além disso, algumas distorções cognitivas estão presentes, entre elas estão: maximização, minimização, abstração seletiva e generalização.
-  Evitação do esquema: como o próprio nome já diz, o indivíduo busca evitar que o esquema seja ativado. Pode ocorrer através da evitação cognitiva, no qual o indivíduo bloqueia pensamentos ou imagens referentes ao esquema. Na evitação afetiva, o indivíduo bloqueia os sentimentos, sendo muito comum relatarem não sentir nada em situações que gerariam emoções na maioria das pessoas e por fim, a evitação comportamental que está associada ao fato do individuo evitar situações que possam desencadear o esquema.
-  Compensação do esquema: Atuam tanto de forma cognitiva quanto comportamental e acabam atuando no polo oposto ao esquema. Por exemplo, se a pessoa tem um esquema de desconfiança, acaba confiando em todos. Muitas vezes é considerado de forma funcional, pois o individuo atua de maneira a atender as necessidades, porém acaba não dando certo, pois tudo precisa de um equilíbrio, que está ausente neste processo. 
Como podemos ver, a TCC é uma abordagem terapêutica diretiva e semiestruturada que visa à resolução de problemas. Tanto terapeuta quanto cliente tem um papel ativo no desenvolvimento da terapia, estabelecendo metas e tarefas entre as sessões. O cliente aprende a ser seu próprio terapeuta, através do aprendizado adquirido no decorrer das sessões e também através do feedback presente na relação terapêutica, possibilitando assim, uma melhor resposta futura frente a adversidades que surjam. Durante o processo terapêutico, o cliente aprende através de técnicas específicas a identificar seus pensamentos e crenças disfuncionais buscando alternativas mais adaptáveis para sua vida.
Referente ao tempo de tratamento existe uma variação, Nos estudos feitos por Beck (1976, Abreu, 2004, p.284), a proposta seria de quatro a quatorze sessões semanais. Neste mesmo estudo, foi apontado que alguns clientes podem levar de 1 a 2 anos para modificar suas crenças e comportamentos disfuncionais. Em outro estudo realizado por Beck e Freeman (1993, Abreu, 2004, p.284) apontam que a melhora dos sintomas está associada à motivação do cliente e da possibilidade de resolução do problema.
Apesar de parecer uma abordagem simples, existem vários detalhes que devem ser levados em consideração. No texto a seguir veremos mais informações sobre a Terapia cognitivo-comportamental. Espero que tenham gostado até aqui. :)


Referências bibliográficas
PADESKY, Christine A. Aaron Beck – A mente, o homem e o mentor. Organizadores: LEAHY, Robert L et al. Terapia cognitiva contemporânea: teoria, pesquisa e prática. Porto Alegre: Artmed, 2010. p.19

KNAPP, Paulo. Princípios fundamentais da terapia cognitiva. Organizadores: KNAPP, Paulo et al. Terapia cognitivo-comportamental na prática psiquiátrica. Porto Alegre: Artmed, 2004, p.19.

YOUNG, Jeffrey E. Terapia cognitiva para transtornos da personalidade – uma abordagem focada no esquema. Porto Alegre: Artmed, 2003.

BECK, Judith S. Terapia cognitiva – teoria e prática. Porto Alegre: Artmed, 1997.