sábado, 25 de junho de 2011

Emoções

O estudo das emoções é um tema antigo, Marco Aurélio (120-180 d.C.) escreveu em suas meditações: “Livre da paixão, a mente humana torna-se mais forte”. Os racionalistas da Antiga Grécia acreditavam que, caso não mantivessem as emoções sob controle, os processos mentais superiores seriam prejudicados. Até então podemos observar que a emoção era vista como algo que pudesse enfraquecer o indivíduo ou como algo incontrolável. Já Darwin acreditava que a capacidade de controlar as próprias emoções era necessária para a sobrevivência do Homo Sapiens; e só depois de sua publicação, os psicólogos começaram a considerar importante a comunicação da emoção, pois antes a viam como parte do instinto básico do indivíduo.

No livro O mal estar na civilização, Freud explicou quee transtornos psíquicos são com freqüência resultado de reações emocionais fora de controle; sentimentos sem freio são rápidos na produção de efeitos devastadores. Freud introduziu o conceito de recalque, onde sentimentos muito dolorosos ou incompatíveis com o ideal que temos de nós mesmos são exilados sem maior demora no inconsciente. Mas a energia própria das nossas emoções precisa de escape, se não acaba se manifestando sob forma de perturbações neuróticas ou mesmo físicas.

Ao sentirmos uma emoção intensa, percebemos várias mudanças corporais; incluindo aceleração da respiração e da freqüência cardíaca, secura na boca e garganta, por exemplo; a maioria das mudanças fisiológicas ocorre durante a ativação do setor simpático do SNA quando este se prepara, para situações de emergência; quando a emoção volta ao normal o parassimpático volta ao controle e restitui o estado normal.

Robert Plutchik propôs a existência de oito emoções básicas: medo, surpresa, tristeza, repulsa, raiva, antecipação, alegria e aceitação. Seus ingredientes não são apenas fisiológicos e de comportamento expressivo, mas também conscientes, pois servem como proteção de perigo. Entre elas, citaremos três para servirem de exemplo:

MEDO – é uma emoção adaptativa e em alguns casos pode ser traumática;

RAIVA – pode ser despertada por eventos frustrantes ou que sejam interpretados como intencionais. A depressão também pode alimentar a raiva e embora seja descarregada, causando calma momentânea, não reduz a raiva em longo prazo, ou seja, expressar a raiva traz na realidade mais raiva;

FELICIDADE – quando nos sentimos felizes, nossa percepção do mundo melhora e ficamos mais suscetíveis a ajudar o próximo. Algumas expressões faciais parecem ter significado universal, independente da cultura onde ele é criado; foi visto que um grupo que nunca teve contato com culturas ocidentais conseguiram identificar as emoções representadas por elas. Assim, podemos ver da seguinte maneira: emoções primárias são aquelas compartilhadas pelas pessoas do mundo inteiro e emoções secundárias são aquelas encontradas em uma ou mais culturas, mas não em todas.

As emoções podem ser expressas também de maneira não verbal, através de gestos e expressões faciais. Os gestos podem variar de cultura para cultura; por exemplo: na Grécia a palma da mão aberta é um insulto desde os tempos antigos; na África Ocidental, é um insulto à honra da mãe, já o polegar para cima, na Austrália é um sinal obsceno; no Japão significa o número um.

Embora as culturas partilhem uma linguagem facial universal para as emoções básicas, diferem no como e quanto expressam emoção; confundimos o sorriso como um reflexo emocional, mas na verdade trata-se de um fenômeno social, pois costumamos sorrir somente na presença de outras pessoas e não para um objeto inanimado.

Através de pesquisas realizadas, foi observado que esconder a irritação ou o sofrimento pode levar ao pessimismo e à depressão; geralmente pode chegar a uma taxa de mortalidade até cinco vezes maior, ou seja, dar vazão aos sentimentos não é apenas humano, mas também de importância vital. Mas não vamos pensar que é para sairmos por aí descarregando nossos sentimentos, pois nada em excesso é de natureza positiva. Uma outra maneira de estar saudável com nossas emoções é aprender a ver as coisas sob um ângulo diferente; tem pessoas que tem o hábito de ver de forma negativa todos os eventos que ocorrem na vida, o que é totalmente errôneo.

O controle das emoções de maneira bem sucedida pode ser aprendida de várias maneiras, é o caso dos monges tibetanos. De acordo com a cultura, esse controle pode ser mal visto, como no caso do ocidente que vê de maneira dissimulada; já no oriente, o estado de espírito equilibrado é sinal de saúde física e mental. Resumindo, através da capacidade de controlar as emoções, podemos modificar impulsos negativos, e assim vivermos de maneira mais harmoniosa.



domingo, 5 de junho de 2011

A História de Nós 2, 3, 4, 5, 6 ...

Se você vem acompanhando o blog pode estar se perguntando “Mais um texto sobre relacionamentos?” E eu respondo o seguinte: Quando se trata de relacionamento a dois, nunca conseguimos esgotar o tema. E como esse assunto tem estado muito forte em minha vida ultimamente, seja através de filmes, peças de teatro, textos, enfim, percebi a necessidade de compartilhá-lo com você, pois acredito que nada seja por acaso. Apesar de que, se pararmos para analisar, este acaba sendo um tema padrão na vida de todos, pois estamos sempre nos relacionando com alguém.

Recentemente assisti a peça “A história de nós 2”, na qual o casal mostra as fases que ocorrem na relação (inicio, meio e fim...E por que não recomeço?). Percebi que durante o espetáculo a maioria da platéia, se não toda, ria do que era colocado, mostrando identificação com a ficção. A peça me fez pensar se há semelhanças entre os tipos de relações existentes e cheguei à conclusão que sim. Pensando no inicio da maioria das relações, mostramos ao outro o que temos de melhor, ou ainda, o que é aceito pela sociedade, e isso não se trata de fingimento ou dissimulação, apenas escolhe-se deixar como fundo o que não é bem visto ou aceito por si mesmo, mas durante a relação, esse lado acaba aflorando, pois não conseguimos nos esconder de nós mesmos o tempo todo.

É muito comum que durante a relação – e torno a dizer que não me refiro apenas ao casamento – algumas pessoas abram mão de viverem suas vidas para se tornarem “Comprometidas com alguém, que não elas”. Isso ocorre principalmente entre as mulheres, embora esse comportamento não seja característico de todas. Muitas abrem mão de sair com as amigas, de fazer o que gosta pelo outro. Isso não é amor! Isso tem outro nome. Que nome você dá?

Toda essa reflexão me fez lembrar o seguinte ditado: “os opostos se atraem”. Em partes está certo, pois quando o casamento ocorre por amor, o que mais nos atrai no outro são as diferenças que representam a polaridade possível a ser desenvolvida e trabalhada em nós mesmos. Mas vale observar que um relacionamento não vive de opostos, é necessário que haja um grande número de igualdades, se não, a relação não funciona. Por isso é importante que os dois desenvolvam seu autoconhecimento, para que não levem suas próprias repetições para a relação a dois, pois essas repetições acabam virando uma bola de neve. Algumas pessoas entram na relação com desconfiança, já com o seu pé atrás. Confiar e perdoar são essenciais na relação, pois não existe perfeição em nenhuma relação.

Vale lembrar também que durante o tempo que o casal está junto, ambos crescem e se desenvolvem, cada um no seu tempo e não tem como voltar a ser o mesmo casal do início da relação. E como na peça, não existe um início que dure para sempre, as outras fases surgem até chegar ao final, voltando a um novo início, seja com a mesma pessoa ou uma nova pessoa. A escolha é sua!


"Ninguém se apaixona por escolha, mas por acaso. Ninguém permanece apaixonado por acaso, é um esforço diário. E ninguém se desapaixona por acaso, é uma ESCOLHA." (Autor desconhecido)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

VII Mostra de Estágio na UERJ

Nos dias 24 a 26 de maio de 2011 ocorreu a VII Mostra de Estágio na UERJ. Esse evento acontece todo ano e teve a participação de grandes empresas do cenário brasileiro. Para os jovens que estão pensando na escolha profissional, esse é um evento de suma importância, pois além de estarem numa universidade, eles tem contato com diversos profissionais, através de palestras e workshops.

A temática desse ano foi: “A equação do futuro”, abordando temas como: empreendedorismo, gestão e inovação, as características e competências necessárias para o mercado de trabalho atual, mitos e verdades sobre o processo seletivo, a importância da orientação profissional, planejamento profissional, oficinas artísticas, oportunidades de estágios e muitos outros.

Este ano estive presente ao evento a convite de Eliseu de Oliveira Neto, Diretor Geral do Grupo de Pesquisa e Prática Clínica Orientando para coordenar junto com a pedagoga Stela Almeida o workshop com o jogo Profissiogame, que tem ele como um dos autores.

O jogo tem como objetivo ampliar as possibilidades de escolha do jovem, proporcionando maior contato com a realidade profissional, de forma lúdica e prazerosa. Percebe-se também que quanto mais o jovem entra em contato com as profissões, mais seguro ele fica para escolher, trabalhando concomitantemente seu autoconhecimento. O jogo não é um fim, mas um meio de se chegar a uma escolha mais pautada com a realidade atual.

Se você ainda não participou, seja profissional ou estudante, não fique chateado, pois esse evento ocorre anualmente e cada vez tem ficado melhor. Fica a dica!



Por que eu me casei?

Poderia ser um convite à reflexão, mas é apenas o nome de um filme que assisti há algum tempo atrás e que recentemente assisti novamente, só que dessa vez, acompanhada de outros colegas da área psi no curso que faço de formação em Casal e Família na abordagem gestáltica.

O filme está intitulado como comédia com toques de romance, mas se pensarmos nas cenas que acontecem durante o filme, acredito que esteja mais parecido com um drama, e quem sabe ainda encontraria algumas pessoas que diriam se tratar de um verdadeiro filme de horror. Brincadeiras a parte, não pretendo abordar através desse texto o conteúdo do filme, até por que indico que todos assistam, pois não aborda somente a temática do casamento, mas também ao que se refere às relações afetivo-sexuais de uma maneira geral.

Após assistido o filme, surgiu a seguinte pergunta no grupo: “Quais os ingredientes para que um casamento de certo?”, podemos pensar também em: quais são as expectativas de cada um acerca do casamento? Perguntas essas aparentemente simples, mas que sugerem respostas muito amplas e com significados diferentes para cada um de nós. Ao estar com o outro, gostamos de acreditar que ele pensa exatamente como pensamos ou ainda, sabemos exatamente que o outro pensa diferente de nós e que por um acontecimento mágico ele mudará sua forma de pensar. Felizmente ou infelizmente, as coisas não acontecem dessa forma; vivemos numa sociedade na qual temos a mania de perceber todas as coisas como sendo “certo ou errado”. E o que é Certo ou Errado? Será que todos tem a mesma percepção?

Mesmo em um grupo de profissionais, as respostas foram variadas e o mais interessante, é que todas as respostas estão corretas. Não existe uma única forma ou uma fórmula para se estar junto. Cada casal encontra a sua “boa forma”. Para o grupo, os ingredientes foram: boa relação a dois, parceria, confiança, estar lado a lado, compreensão, diálogo, investimento (objetivos em comum), comprometimento, desejo, afeto, sexo, química, etc. E tenho certeza que você que está lendo este texto ainda poderá encontrar alguns outros ingredientes que não estejam nesta listagem.

Tais respostas me trouxeram a seguinte indagação: Será que os casais percebem da mesma forma a palavra “Casamento”? ou mesmo “Relacionamento”? Infelizmente as dificuldades que percebo mais comuns são: a falta de diálogo, a dificuldade em escutar o que o outro tem a dizer, os segredos que ocorrem na relação e a competição entre o casal. É importante que haja sintonia entre ambos, pois manter a guerra leva ao desgaste emocional e consequentemente ao término da relação.

O segredo, se é que existe um, está em manter um relacionamento pautado no respeito, mas o que é respeito? Afinal estamos falando de algo subjetivo e com múltiplos significados. Quando digo respeito, penso em atenção e que não seja só pelo outro, mas também, como diria Foucault, no cuidado de si. Não adianta abrir mão de coisas que para si são importantes e depois responsabilizar o outro. É preciso se responsabilizar por suas escolhas e por suas decisões. Que tal prestar mais atenção aos seus sentimentos?

domingo, 15 de maio de 2011

Relacionamentos

Tive o prazer de assistir a peça Doidas e Santas no teatro Vanucci, no shopping da Gávea. A peça conta a história da Beatriz, uma psicanalista, filha de D. Elda, irmã de Berenice, mãe de Marina que é adolescente e por fim, esposa de Orlando. O casamento deles já dura mais de 20 anos e acabou caindo na rotina, fazendo com que ela pedisse o divórcio. Não tenho a intensão de falar sobre a peça em si, mas sobre as reflexões que tive ao assistir a peça. Em todo caso, fica uma boa dica para o final de semana!

Como Beatriz, muitas pessoas também exercem diversos papéis na vida real, mas geralmente é o público feminino que em sua maioria acaba caindo na rotina diária e esquece o que realmente é importante para as suas vidas. Muitas vezes as mulheres vivem os sonhos de outras pessoas, esquecendo-se de seus próprios sonhos. Dessa forma a vida vai ficando cada vez mais sem graça e cansativa. Na maioria das vezes, responsabilizam outras pessoas por sua frustração. Mas o que as impede de viver plenamente a vida que desejam? E que vida desejam realmente viver? Pode parecer bobo, mas para muitas pessoas essa é uma pergunta extremamente difícil de responder.

Se você está neste momento se perguntando a mesma coisa, leve em consideração os seus valores; pense no que realmente é importante e essencial para você. Pense no que você não abre mão. Valorize o que você gosta, seja ler um livro, assistir um filme, conversar com amigos, fazer ginástica, etc. Encontre algo que goste de fazer, que lhe dê prazer e se permita desfrutar desse momento. Investir no autoconhecimento é fundamental.

Algumas pessoas permitem que o outro dite o que é certo ou errado para as suas vidas e ainda pensam no que o outro dirá, dificultando assim, qualquer forma de contato saudável. Isso não significa que tudo é permitido, mas que é necessário ter consciência e acima de tudo, responsabilidade. Aproveito para citar uma frase do Pequeno Príncipe, “Somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos”.

E pensando assim, chegamos à formação do casal, no qual cada um dos envolvidos entra na relação trazendo sua bagagem pessoal, leva para o relacionamento sua herança familiar, com perdas e ganhos adquiridos ao longo dos anos. Cada um chega com suas expectativas em relação ao outro, inicialmente parecem perfeitos, príncipes e princesas, mas o tempo vai passando e se não houver cuidado com a relação, acaba caindo na rotina. De príncipes e princesas, só restam os sapos. E quem quer casar com sapos?

Dessa forma é fundamental que ambos busquem trabalhar seu autoconhecimento, de forma a entrarem na relação da maneira mais sadia possível, não esperando do outro mais do que ele pode dar. E finalizando, eu deixo uma pergunta:

- Vocês querem a metade de uma laranja ou uma laranja inteira? A escolha é de vocês!

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Aprendi...

Aprendi que eu não posso exigir o amor de ninguém, posso apenas dar boas razões para que gostem de mim e ter paciência, para que a vida faça o resto.

Aprendi que não importa o quanto certas coisas sejam importantes para mim, tem gente que não dá a mínima e eu jamais conseguirei convencê-las.

Aprendi que posso passar anos construindo uma verdade e destruí-la em apenas alguns segundos. Que posso usar meu charme por apenas 15 minutos, depois disso, preciso saber do que estou falando.

Eu aprendi... Que posso fazer algo em um minuto e ter que responder por isso o resto da vida. Que por mais que se corte um pão em fatias, esse pão continua tendo duas faces, e o mesmo vale para tudo o que cortamos em nosso caminho.

Aprendi... Que vai demorar muito para me transformar na pessoa que quero ser, e devo ter paciência. Mas, aprendi também, que posso ir além dos limites que eu próprio coloquei.

Aprendi que preciso escolher entre controlar meus pensamentos ou ser controlado por eles. Que os heróis são pessoas que fazem o que acham que devem fazer naquele momento, independentemente do medo que sentem.

Aprendi que perdoar exige muita prática. Que há muita gente que gosta de mim, mas não consegue expressar isso.

Aprendi... Que nos momentos mais difíceis a ajuda veio justamente daquela pessoa que eu achava que iria tentar piorar as coisas.

Aprendi que posso ficar furioso, tenho direito de me irritar, mas não tenho o direito de ser cruel. Que jamais posso dizer a uma criança que seus sonhos são impossíveis, pois seria uma tragédia para o mundo se eu conseguisse convencê-la disso.

Eu aprendi... que meu melhor amigo vai me machucar de vez em quando, que eu tenho que me acostumar com isso. Que não é o bastante ser perdoado pelos outros, eu preciso me perdoar primeiro.

Aprendi que, não importa o quanto meu coração esteja sofrendo, o mundo não vai parar por causa disso.

Eu aprendi... Que as circunstâncias de minha infância são responsáveis pelo que eu sou, mas não pelas escolhas que eu faço quando adulto.

Aprendi que numa briga eu preciso escolher de que lado estou, mesmo quando não quero me envolver. Que, quando duas pessoas discutem, não significa que elas se odeiem; e quando duas pessoas não discutem não significa que elas se amem.

Aprendi que por mais que eu queira proteger os meus filhos, eles vão se machucar e eu também. Isso faz parte da vida.

Aprendi que a minha existência pode mudar para sempre, em poucas horas, por causa de gente que eu nunca vi antes.

Aprendi também que diplomas na parede não me fazem mais respeitável ou mais sábio.

Aprendi que as palavras de amor perdem o sentido, quando usadas sem critério. E que amigos não são apenas para guardar no fundo do peito, mas para mostrar que são amigos.

Aprendi que certas pessoas vão embora da nossa vida de qualquer maneira, mesmo que desejemos retê-las para sempre.

Aprendi, afinal, que é difícil traçar uma linha entre ser gentil, não ferir as pessoas, e saber lutar pelas coisas em que acredito.


* Alguns sites dizem que o texto é de autoria de Charles Chaplin e outros dizem que é de W. Shakespeare

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Quando não posso ouvir...

Desagrada-me não poder ouvir a outrem, não o compreender, se é apenas uma deficiência de compreensão, uma falta de atenção ao que me está sendo dito, ou certa dificuldade de entender as palavras,, então não me sinto mais que um ligeiro descontentamento comigo mesmo.

Mas o que realmente desgosto comigo é não poder escutar outra pessoa porque já estou, de antemão, tão certo do que ela vai me dizer que não lhe dou ouvido, só posteriormente verifico não ter prestado atenção senão ao que já decidira que ela ia me dizer. Na verdade, deixei de ouvir, pior que isso, são as vezes em que não posso escutar uma pessoa porque o que está sendo dito constitui uma ameaça para mim, com risco até de mudar minhas opiniões ou o meu comportamento. Ou, pior ainda, quando me descubro a tentar distorcer sua imagem, a fim de fazê-la dizer o que eu quero que diga, só escutando isso.

Coisa um tanto sutil, e é surpreendente a habilidade que tenho quando faço isso. Exatamente por deformar um pouco suas palavras, por distorcer, um mínimo o que ela pretende significar, posso tornar evidente que não só ela diz o que eu queria ouvir, mas se mostra a pessoa que eu quero que ela seja, e só quando verifico, através do seu protesto ou do meu gradual reconhecimento de que estou a manipulá-la, sutilmente, que fico desgostoso de mim próprio. Sei também por haver estado do outro lado, o quanto é decepcionante ser tido por aquilo que não é, ser ouvido como se estivesse a dizer o que não se disse ou não se pretendeu significar. Preciso me desvincular do meu juízo de valor para, ter liberdade para aprender.

FONTE: Carl Rogers – Liberdade para aprender